domingo, 2 de janeiro de 2011

homem = mcel


Sim, mcel é como homem.
As 8h10 recebo sms bónus.
As 8h20 recebo sms bónus.
Ás 8h30 recebo sms bónus – ei, é p eu fazer o quê? Te pedir em casamento porque me ofereceste flores?
E são cinco sms! Claro que verificando meu saldo percebo que não recebi cinco ramos de flores! Não, recebi, e apenas umas vez, 115 Mt de crédito! É para fazer o que com isto, pah? Homem que uma vez baba quer ser babado por isso o mês todo!
Mesmo nos giros há de 20, 50, 100, 200 os de 600…
Eu carrego com 200 - ”100/ 100” - e sinto-me satisfeita com o meu investimento. Porque vejamos, é homem que se pode aguentar por alguns dias - what can go wrong? - e em caso de receber a mensagem “a recarga que introduziu não é válida” eu não fico na banca rota e a mensagem seguinte “por favor contacte o serviço de apoio ao cliente”, não me dá ganas de suicídio, e embora me possa fazer verter algumas lágrimas tenho estômago – que é como quem diz coração - para investir de novo.
Porque homem quando não se conhece é como recarga de crédito Giro: antes de raspar é apenas uma promessa e depois de raspar já é tarde demais! O número para onde podemos reclamar - seja ele o da mãe ou da mulher - demora tardes a contactar – às vezes temos mesmo de nos deslocar lá, ao balcão – da loja ou da cozinha - para falar com os intermediários, e aí a situação já está nas últimas, já implica exposição, explicação, reclamação.
E o que fazer com a mensagem “esta recarga giro já foi por si usada”? ui, esta assusta, é como ir sair para a night beber demais e acordar no dia seguinte parecendo-me que a meu lado está o meu ex… namorado. Ui, como é que caí nesta de novo?
Carregamento de 2000 dá direito a 100 Mt de bónus e durante 15 dias posso falar para qualquer número mcel… sim, a aposta num namorado em vez do desportivismo de vários tem… vantagens, eu sei… Mas duram em geral 15 dias! Passado esse tempo já nada é de graça, e chamada, sms, questão sobre destino ou pedido de boleia tudo é pago e sai caro.
Mas a mim parece-me investimento de desconfiar “Joana, porque compras sempre os 100? Mas porque não carregas com 2000? vais gastar esse dinheiro de qualquer modo mais tarde ou mais cedo” sim… mas não sei se o gasto nisto… porque mulher até pode ficar algum tempo com homem que não a satisfaz, mas está sempre atenta, e se aparecer coisa melhor pula fora! Enfim, 2000? É coisa a muito longo prazo para mim…
Depois há as promoções mms que é coisa que ninguém quer, mas mcel/ homem tem – e gaba-se disso!
E sim, se investimos no nosso homem duas vezes na mesma semana temos bónus, mas bónus que não valem de nada se não tivermos mais crédito na tal conta…
Na mcel estamos sempre juntos … e com homem também. Mesmo quando ele bebe nas barracas ou dança passada no karaoke do bar e bar, ele está contigo…
- “Amor, eu tou grosso mas meu coração ainda é teu.”
Mcel também, mesmo quando não conseguimos enviar sms horas a fio e não faz chamadas durante tardes inteiras.
Porque mcel é assim mesmo, basta fazer qualquer ninharia, do tipo bónus yo-yo - que tem bom nome porque ao menos bem sabemos que sobe mas voltará a descer - não fala em mais nada! E manda mil sms a avisar do facto, muitas vezes seguidas por um pleasecallme! Como damo que leva dama UMA vez a comer sorvete e quer que se fale disso nos jantares e a toda a família, achando que isso perdoa as tardes a tomar pretas com os amigos.
Sim, dizem-me que não mude mas que acumule o amante e ficará tudobom… mas na verdade… não me apetece… acho que nenhuma opção é boa! Se fosse não havia duas, não é? Quem tem dois cartões no celular por opção? É necessidade...
Como diz uma amiga minha “trocar de namorado é trocar de problema” por isso não troco.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Mcel = homem


Mcel é como homem, homem casado que te deixa em stand by à espera do SEU tempo livre.
Mcel é como homem, homem mulherengo que desaparece na tarde 6ª e só regressa às 12h. de domingo.
Mcel é como homem, pito ingénuo que oferece presente e espera declaração.
Mcel é como homem, homem-marido que não honra contrato mas também não o cancela.
Mcel é como homem, homem-amante que… não… mcel não é amante, é marido mesmo!
Trocam-se os comentários na net:
- “He he he... Nem posso entrar na discussão das operadoras... Mas o tudobom tá melhor que o estamos juntos...”
- “Ahahahahah ya... tudobom é que é! Quem quer estar junto se não for para ser tudo bom?”
- “Quem continua fiel dá-se por insatisfeito, sempre a reclamar a falta de rede, roubo de crédito, desvio de chamadas… enfim tal como homem-amante a vodacom é diferente, tá sempre no clímax, disposto em qualquer lugar, é tudo bom!”
Sim, mcel é como homem.
Hora do almoço está “not available”.
Serviço de apoio ao cliente – leia-se de pedido de… esclarecimentos… ou de satisfações! - nunca está disponível – “falamos disso depois pah!” – porque a ligação não é boa – “agora tou busy, tou incomodado, tou… não dá pah!”
E a partir das 15 horas numa sexta feira, claro… homem e mcel tão juntos e “cannot be reached…”
E se decidimos ir atrás, mesmo quando conseguimos ligação inevitavelmente a comunicação demora, e seja em português, inglês ou changana, é preciso carregar um botão – que a mcel informa qual é “press one” e que no homem temos de adivinhar – mais do que uma vez, e aceder mesmo a aceitar uma língua qualquer, mesmo que não dominamos – sim, porque homem embriagado ou pressionado é tudo igual, não se entende o que diz - que mal entendemos, para termos a hipótese de ser pelo menos ouvidas.
Há homens giros, sim, mas embora sejam mais práticos não nos trazem as vantagens do homem por contracto. - Dizem…
Mas eu cá prefiro! Prefiro o pré-pago! Sim, é um investimento em coisa arriscada, duvidosa, por demais instável, mas… vejamos, no homem a contrato eu só sei o que devo no final do mês, e é invariavelmente tarde demais para eu corrigir eventuais erros na factura…
E depois há os clientes com pré-pago que recebem mensagens como se tivessem contrato: “a sua factura deve ser paga até dia x”. E depois segunda sms; “por lapso a mensagem anterior tinha informação errada, a sua factura deverá ser paga até dia tal”. E por último uma terceira: “caro cliente pedimos muitas desculpas pelo incómodo que podemos ter causado, houve um erro no envio da mensagem para o seu número”.
Isto é mais ou menos o mesmo que eu ligar ao game de uma noite a perguntar onde estão as minhas camisas engomadas.
É mais ou menos como me chamarem Maria três dias seguidos e depois confessarem que não é que me confundiram, é que não sabem o meu nome mesmo…

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Verão é tesão


É verão. Ela está sentada debaixo da acácia. Transpira. O verão de África destila-nos o corpo, pelas pernas abaixo escorre um fio claro de suor.
Passa um homem. Bonito. Os nossos olhares seguem-no…
- Ysh!... homem bonito Moçambique tem! He He Heiiiiii…yaaa…! – suspira um sorriso.
O chão está coberto de flores vermelhas que despem a acácia. Tenho um sentimento profundamente… feminino, aqui. Apanho uma flor e comento-lhe a forma, ela sorri:
- Essas flores sujam tudo pah!
Hoje não estiveram juntos e a ela dói-lhe a cabeça. Não lhe apetece mas fala:
- Sim, nesse dia regressei para casa ainda quente, ainda transpirada do sexo, ainda emocionada pela… velocidade… não, pela intensidade! Assim é que é! Sei que fui com ele por tesão e sei que não foi porque tivesse falta de um homem, de um homem qualquer quero dizer.
É sempre assim nos primeiros momentos, o meu corpo deseja algo que a minha mente consciente questiona, por vezes reprova mesmo. Fico assim um tempo, a saborear apenas a tensão dos opostos… e uma desejada… penetração. É assim que se diz, né? Ya, maningue… mas não soa bem, não soa ao que sabe essa cena! – ri-se.
E nestas primeiras conversas, invariavelmente… nos homens alguns tempos parecem-me… ridículos, algumas expressões do rosto são… esgares que desfiguram mesmo as feições mais bonitas… e algumas palavras ou frases… são risíveis!
Ahahahahahah … Mas desejo algo aí… tesão está no desequilíbrio… nesse agir meio fabricado dos primeiros momentos da atracção. Sim, são bem visíveis os artifícios da sedução masculina, as palavras forçadas, os elogios exagerados, os desenhos desastrados das pequenas armadilhas. Os enganos, as mentiras mesmo! Tudo se percebe aqui mesmo, nos primeiros momentos de um papo.
A confiança exagerada dos homens mais velhos, paternais e professorais; o caminhar ridiculamente gingão de um corpo gordo, ou pouco atlético; a pressa naïf dos mais jovens...
Sim, não sei bem o que me fez ir para a cama com ele assim… no primeiro encontro, depois de um almoço numa tarde em que chovinhava.
Bebemos vinho, e entre os goles ele desenhou sua teia, metade eu neeeeeeem ouvi! Na verdade eu não queria falar. E enquanto ele achava que partia os gelos eu observava como no cruzar dos braços os ombros dele ficam… pequenos para um corpo tão… corpo. Achei-o bonito? Não sei… logo que cheguei não! Acho que não...
Mas quase intui o que nele me iria apaixonar… o sorriso aberto e safado… sim, yaaaaaa, é bonito! Também a-do-ro os braços dele! Não gostas desses braços assim que enchem a mão? Ysh! ya, eu gosto maningue! Corpo pah? Tem!
Às vezes acho que eu me divirto apenas com isto: conhecer homens é conhecer o Homem e as suas fascinantes manias!
Sim, observo-lhes a postura nas primeiras vezes, mesmo na cama, dou por mim a ver as tensões no pescoço, a firmeza dos peitorais, a forma do pé que se mostra no enrolar orgásmico dos dedos dos pés. A maioria dos homens dobra os dedos dos pés quanto se vem, sabias? Sim, eu vejo isso… muito.
No tema ele foi directo e tenho de dizer que foi eficaz eu... ei, eu não resisto! É para fazer o quê? Gingar? Não vivo no tempo das donzelas nem acredito nos machismos, não me importa o que dizem ou que pensam os outros e sem problemas assumo as minhas escolhas. No que faço eu sou mais EU!
Sim, seduz a tesão que encontramos nos outros. Um olhar focado no meu corpo molha-me… e nesse dia mesmo conheci mais um desses hotéis que alugam quartos há hora!! Ahahahah, a vida é simples mana… people é que com-pli-ca.
Sim, é um começo questionável, condenável mesmo diria a minha mãe, mas começou assim…

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Envelhecer casa II


Casa 2 não tem tempo, tem espera.
Casa 2 não chega e cumprimenta, na rua encontram-se? Ela disfarça.
Casa 2 não aparece, pergunta se pode vir.
Casa 2 não liga, manda sms.
Não manda sms quando quer, tem horário.
Não vai a festas, vai a programas.
Não se veste, despe.
Não sabe, imagina.
Não é informada, é enganada.
Não é exclusiva, é emprestada.
Não sonha, viaaaaaaaaaaaaaaja.
Não discute, confusiona.
Não tem opinião, tem mania.
Não planeia, é planeada.
Casa 2 não passeia, vai a gones.
Casa 2 é full time djob com salário de part time.
Casa 2 não almoça junto, é sobremesa.
Casa 2 não fala, escuta.
Casa 2 não manda, obedece.
Casa 2 não sabe, desconhece.
Casa 2 não conhece os amigos, conhece os manos.
Casa 2 não conhece a família, é conhecida…
Casa 2 não tem marido, tem marido de dona.
Não engravida, dá o golpe.
Não ama, sofre.
Não tem cunhada nem sogra, tem metade de homem.
Casa 2 não vê, é cega.
Casa 2 não fala, grita.
Casa 2 está sempre ocupada, amiga convida:
- Queres sair hoje?
- Não sei ainda… falamos. - e às vezes ganha coragem:
- Ok combinamos jantar! - mas aí depois liga o damo e como ele tá livre, tem 30 minutos disponíveis, joga às 20h, tem reunião de manhã, viaja na próxima semana, quer uma noite… ou um beijo… casa 2 tá livre… sempre.
Se casa 2 se cansa e resolve sair, claro que sai, pode. Mas sai sozinha, ou com a amiga que sabe ficar, calar, disfarçar, porque a qualquer momento da noite ele vai ligar:
- Tás aonde?
- Tou aqui com minhas amigas.
- Eu tou free.
- Ok… eu tou aki e…
- É para eu fazer o quê? Eu estou AQUI.
- … Ah… não queres vir?
- Nada, vem cá tu... gostosa. Anda, tou à esperaaaaa.
E ela sorri, comprometida.
Sorri porque é carinho o chamado do homem. Porque hoje se sente importante, damo está a chamá-la. Sim, porque assim não soa a um convite, soa a uma ordem mas… ela sabe… e no fundo, bem no fundo ser mandada assim é tão… excitante.
Durante dias damo tá busy, não liga, não responde, não convida.
A saudade aumenta, sim, porque casa 2 ama, sonha em ser casa 1, bem sabemos.
Hoje ele liga, e pode ligar a qualquer hora, o tempo é dele. Ela atende, e escuta, fala pouco, mas decide logo porque… não sabe quando damo estará assim free de novo para ela. Despede-se das amigas:
- Mas não íamos ao Lounge hoje, afinal? Aaaaaaaaaaah já vais?
- Talvez venha lá, vou convidar e… talvez…
Mas ela sabe que não. Que de lá de onde ele está eles não vão para o Lounge, para o Coconuts ou para o Dolce Vita, dali vão para um quarto de hotel dos mais baratos ou para um gone no banco de trás de um carro. Sabe que não vai encontrá-lo nos bares fashion da noite, nem vai sorrir aos amigos ou passear de mão dada, não vai dançar uma passada nem receber um beijo na boca na chegada. Vai sentar, vai beber, vai seguir o seu homem quando a tesão falar mais alto. Por isso ela vai. Segue-o.
E casa 2 já nem sabe como isto começou, não lembra se sabia que este homem não estava livre e sonhava em tê-lo para si, acreditando nas promessas e nas queixas de casa 1 falhada; ou se não sabia… se começou a ver nos tempos e nas ausências que não era a única…
Casa 2 não tem vida, casa 2 é envelhecida.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Envelhecer casa


- Casa 2 tem de saber seu lugar! Comportar-se pah! Agora, comigo – paragem brusca para reformulação - Quer dizer, quando eu faziaaaa essas coisas, se casa 2 vem aqui e me vê com minha mulher, que ela pode nem saber se é minha mulher ou não! e fica a fazer gracinha, a mandar sms e não sei mais quê! Pah, não dá! É para chegar e ficar dis-cre-ta! Sem palavra, olhar só. Ou nem olhar! Nem mostra que me conhece!
- Porque casa 2 que sabe se comportar normalmente passa a casa 1.
Sim, porque casa 2 não é primeira, é segunda.
Casa 2 não está feliz, casa 2 tem plano. Casa dois quer subir.
E para que este interesse se mantenha o seu homem faz surpresas, carinhos, mimos mesmo, deste género:
- Onde é que estás que eu passo aí?
Tipo, passo aí onde estás, eu vou e não me comprometo, porque tu estás aí, não combinei contigo, e passo, eu estou de passagem, por isso não sou bem eu, não me vou expor nem desenvolver muito o que quero dizer, ou fazer. E não vou sozinho, não! Damo vai com brada, chega em grande estilo, e antes de se dirigir sequer a casa 2 ele dá um giro no espaço, mede os adversários, o ambiente, e aí sim, dá o beijinho que não compromete, aperta a mão de quem não conhece e talvez até sente um pouco, talvez… mas tá busy, não vai ficar, vai bazar. Ou fazer para ela o olhar de “vamos?” e não importa se ela está com amigas ou amigos, família ou patrões, ela vai. Se não já, mais logo, mas ela vai.
Ser casa 2 é isso, ficar em standby dias inteiros, e receber em doses homeopáticas as frases:
- Estou na tua zona.
- Anda.
- Sobe.
- Desce.
- Vem me apanhar.
Mas não te zangues já com este homem, nem penses que é cruel, porque não foi ele! Ele não ligou e disse “não saias de casa! se sais dou-te porrada!” Não, ele não mandou.. ele… pediu.
Ele manda mensagem:
- Estou ao lado da tua casa – e casa 2 se está corre à janela, toma banho, penteia o cabelo.
Mas entre esta e a segunda mensagem podem passar minutos… ou horas…
Ela não insiste, porque casa 2 não pede, casa 2 recebe.
Casa 2 não romantiza, disponibiliza.
Casa 2 não comenta, casa 2 senta.
Casa 2 não confronta, leva afronta.
Casa 2 não exige, agradece.
Agradece que no coração e na agenda deste homem haja um lugar para ela.
E na segunda mensagem pode vir uma provocação, uma promessa, uma insinuação.
E casa 2 vibra! E se não está em casa começa a pensar em regressar, fica nervosa no djob, encurta as compras ou termina o chá com as amigas, no ginásio desliga a máquina e já nem vai à piscina.
Para apaixonada este pode ser o momento alto da semana e ela corre para ele.
E em casa compõe a mesa, aumenta cerveja na geleira e talvez acenda mesmo uma vela.
E depois de 30 minutos, talvez 40 vem outra mensagem:
- Ysh, esse djob! Tou busy. Mas tou na tua zona, gostava de te ver.
E a desilusão da primeira parte da frase é largamente ultrapassada pela promessa da segunda. E casa 2 senta, e espera… durante toda a tarde o seu homem vai mantendo viva a chama, em promessas e sugestões, ela espera. Ele viaja amanhã talvez… espera.
E enquanto espera a generosidade de um minuto do seu homem, enquanto cancela jantares e não combina saídas, adia férias e lamenta fins-de-semana casa 2 fica assim, e envelhece.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Da confiança


No primeiro encontro ele chega com confiança. Olhos nos olhos, quase mão na mão:
- Sabes, nós os dois, eu e tu, ligamos. Não tens maneira de fugir, nós ligamos.
E depois com confiança o moçambicano organiza, convida, elogia, apresenta, baba...
Com os bradas falam sobre as relações e as excepções, sobre os ciúmes e os cortejamentos:
- Estás a dizer que ela não é ciumenta? Ela não é ciumenta porque está a concorrer para as eleições! Quando ganhar? Vai mudar, vais ver!
- Ya! Mulheres mudam quando casam! Aquela que tá lá em casa, quando éramos namorados – baixa um pouco o tom de voz e soletra - a-do-ra-va sexo anal, agora que casou dói!
- Ya, depois diz que italiano é que é romântico!
- Joana, diz lá, é verdade isso?
- Nada, Joana gosta é de moçambicano, eu sei.
- Nós sabemos.
– Estás a rir, fala lá! Só ri ela.
- Ah, vamos ler no xikwembo isso aqui!
- Fala, moçambicano é bom para cama né? Mas festinhas e beijinhos é italianos é isso? Fala pa…
- Mas sabes, isso é porque estás traumatizada com moçambicanos! Eu sou diferente. Eu não faço as coisas assim, não é verdade! Comigo vais apaixonar tu.
- Tas m’ameaçar?
- Nada, não preciso.
- Problema são rótulos! Sabes disso né?
- Ya! Porque mulher e homem, é culpa dos dois, quando namora ou quando casa, enfim, quando chega compromisso, as pessoas mudam!
- Ya, logo reclamam: “porque não fazes isso, sou tua namorada eu!”. E dizem “mas eu vivo contigo, é diferente!”
- Sim, é diferente, agora já não a vês quando queres ou porque queres, vês porque vive lá em casa, só!
- Sim, e cobram! Amor não se cobra! “Porque não me mandaste mensagem hoje?” e “como passas todo um dia sem me ligar?” E “não tiveste saudades minhas”… hiiiiii”!
- Complicam muito.
- Joana, amor.
- ?! O quê!?
- Sabes que eu gosto de te chamar de amor… não posso? Então vamos ver, nós aqui somos o quê? Eu e tu.
- Ui, tá a querer catalogar, não cataloga isso! Aí estragou!
- Nada, não é isso, é para sabermos que é!
- Ei, casamento é essa ideia, é falta de confiança casar, isso não é nice.
- Joana, tu sempre foste assim?
- Assim como?
- Confusa. Vocês pequeninas sempre são assim, mania que são duras! Amam mas são tuff não dizem! Tu tás a gostar de mim, mas não admites, armada em forte não dizes nada, mas vais cair, tu que me vais pedir em casamento tu!
- Mas então não dizias que os rótulos é que é mau?
- Joana tu tens de aprender uma coisa, gostas de ser selvagem né? Não me estás a confiar. Mas aprende que cada bom cavalo tem um bom jockey…

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Conheces?


Chatamos no facebook, trocamos sms, falamos mesmo no bar. Mas moçambicano não se conhece assim.
Jantamos na mesma mesa uma vez, no trabalho cruzamo-nos no corredor. Frequentamos os mesmos sítios e temos amigos comuns, mas moçambicano não se conhece assim.
Leio os livros e os jornais, oiço as músicas na rádio e vejo os shows nas praças. Mas não, moçambicano não se conhece assim.
Moçambicano conhece-se no toque insinuante dos dedos, na elasticidade macia da pele do peito, na cor limpa e brilhante das coxas.
Moçambicano conhece-se nos lábios grandes de beijos, nas mãos cheias de bunda, no sorriso branco de dentes, no tom grave do riso solto.
No papo… ah, moçambicano tem papo!
Não faz pergunta e foge a respostas. Mas diz, fala, elogia, insinua e não insinua no duplo sentido da língua portuguesa - que como todos sabemos é traiçoeira - não, não é nos sentidos dúbios das palavras que o moçambicano se alonga, é o triplo acento de um olhar que transforma um simples “bom dia” na excitante forma da quase obscenidade. Elogiosa, sempre. És quente tu, seja quem fores. E sentes isso num piscar de olho cúmplice, num afirmativo levantar de sobrolho. Acção que confirma, que convida, que dá.
Moçambicano conhece-se na investida pélvica de uma passada. Na frescura espessa e doce de uma Laurentina. Num gole de cerveja preta, claro.
Moçambicano conhece-se na dormência grossa que o piri-piri sacana deixa na língua. No som batido dos tambores, sim, no desafino da timbila.
É verão. Chove. E o moçambicano conhece-se no pingar grosso que aparece de surpresa, no sol forte que vem sem aviso. Na frescura do vento que despenteia cabelos e descobre pernas. No som do agitar das folhas dos coqueiros. No bafo quente do vento suão que de noite nos surpreende nuas.
Moçambicano conhece-se no “não” sempre ausente. No eterno concordar.
Moçambicano conhece-se no improviso, no desconseguir sorridente de cada tentativa. Moçambicano conhece-se na porta aberta da hospitalidade, no olhar directo do estudo. Moçambicano estuda, sim, olha para fora. Observa-te sempre, e o caminho que faz tem base no que vê, no que mostras.
Ah! e para moçambicano mostras, mostras sempre, é desarmante a generosidade do que aprecia, é cativante.
- Estás bonita hoje, sapatos vão bem com teus cabelos.
- ? Ah! Ah! Ah! - Moçambicano conhece-se na prontidão do papo, na doçura sempre dependurado nos lábios generosos, no desejo em reflexo nos brilhos molhados dos olhos, no esboçar constante de um sorriso nas faces.
Moçambicano conhece-se na água do coco, morna e suave como saliva.
Moçambicano conhece-se na doçura e maciez de uma manga madura. Na dureza aparente de uma massala, na acidez doce de um maracujá.
No corpo.
- Aquele rapaz que parece uma estátua era teu namorado?
Moçambicano conhece-se no desenho sinuoso dos braços, no redondo perfeito da nuca, na testa brilhante, no nariz redondo, nos lábios cheios. No peito desenhado, nas costas fortes de músculos curtos e duros, nas pernas atléticas…
Sim, Moçambicano conhece-se no prazer, é aí que se conhece.