segunda-feira, 31 de maio de 2010

Da vergonha


A vergonha é para mim um sentimento… misterioso.
Não falo da vergonha encabulada da infância, quando somos apanhados em falta. Ou do nervoso que faz o sangue subir com mais intensidade à face e nos aquece as bochechas.
Falo da vergonha como um sentimento forte, ácido, contundente por vezes, que nos faz ter dificuldade em levantar a cabeça, em olhar os outros nos olhos; que nos impede de falar livremente das nossas próprias acções, sem medo de censura ou desaprovação.
Porque acho estranho, mesmo bizarro, que eu possa sentir vergonha de algo que fiz. Se fiz é normal, mesmo que agora fizesse diferente, mesmo que tenha outra opinião e gostasse de mudar algo, na altura foi assim, nada a fazer. E na verdade o que posso mudar agora, a minha acção é essa, não é ter vergonha do passado mas fazer diferente.
A vergonha, com excepção dada à naïfte charmosa da tenra idade, é sentimento inútil. Não serve para nada. É sentimento cobarde, que nos impede de agir no agora.
Mas claro que eu já senti vergonha, sim todos nós sentimos.
Mas a vergonha faz-nos esconder, impede-nos de enfrentar, leva-nos a mentir.
Vejamos um exemplo concreto, nas situações de violência doméstica as vítimas começam por desculpar os agressores. São comuns as contextualizações elaboradas e emotivas das acções frias e secas que sofrem. E justificamos, elaboramos, enganamo-nos, protegemos quem não merece protecção.
Namorávamos há bastante tempo e eu era muito nova não pude fazer nada e… Ele era carinhoso mas um dia ficou muito nervoso com uma situação no emprego e… Casámos muito cedo e… Ele nunca tinha tido nenhuma atitude de violência mas… Ele era muito calmo mas quando bebia ficava completamente diferente e… Ele pensava que eu tinha outra pessoa e descontrolou-se… Ele era muito inseguro e tinha necessidade de mostrar o seu poder em frente às outras pessoas e… Ele bebia e… Ele acompanhava-me até à escola e ficava à minha espera no portão, e não podia ver-me a falar com colegas senão...
E… ele deu-me uma chapada; perseguiu-me; bateu-me com o cinto; afastou-me da família; apertou-me o pescoço; ameaçou-me com uma faca; atirou-me ao chão; rapou-me o cabelo; torceu-me o braço; atirou-me pelas escadas; fez chantagem comigo; insultou-me; roubou-me o meu filho; arrombou uma porta na minha cara; deu-me pontapés; bateu-me quando estava grávida; violou-me; proibiu-me de trabalhar; ridicularizou-me frente a estranhos; fechou-me em casa; proibiu-me de falar com os amigos; bateu com a minha cabeça na parede; retirou-me o dinheiro; queimou-me com um cigarro; pisou-me; bateu-me enquanto eu segurava o meu filho; caluniou-me junto a meus vizinhos; destruiu as minhas coisas; humilhou-me…
Raramente as acusações são feitas assim, crua e secamente. Na maioria das vezes as atenuantes, somos nós, as vítimas, que as apresentamos mas invariavelmente a frase acaba com “bateu-me”. Sim, ele bateu-me. Mas sou eu, a vítima, que construo a frase com “mas” e “se” e justificações para o acto dele.
Porquê?
Porque tenho vergonha. EU tenho vergonha de ter sido agredida.
Faz sentido isso?
Mas sim, claro. Eu tenho vergonha porque eu o escolhi, porque eu não tenho coragem de denunciar, de ir embora, de fazer queixa à polícia, de acabar com o abuso. E é aqui que começa o poder do agressor, o poder que eu, vítima, lhe dou, de manipular o que eu sinto por dentro, o que eu sinto em relação a mim. Muitas pessoas são abusadas e não denunciam porque elas têm vergonha. Sim, também têm pena muitas vezes do amor que não resultou, medo de não ter mais hipóteses na vida sozinha, têm falta de opções de sobrevivência, e nenhuma independência económica, falta de compreensão por parte dos familiares… mas muitas vezes somos nós, as vítimas, que nos colocamos nessas situações, somos nós que nos escondemos, que não contamos, que nos afastamos das pessoas que nos são próximas, que desculpamos e justificamos as acções injustificáveis. Porque temos vergonha.
E muitas vezes ele também tem, ele, depois de exposto e denunciado tem vergonha. Mas tem vergonha de que se saiba? Devia ter vergonha sim, mas vergonha de fazer.
Por isso eu agora conto. Digo tudo, a toda a gente, exponho o que dizem ser a nossa intimidade e que se deve preservar, não importa! Nada é íntimo, deve-se partilhar. E embora em muitas facetas da intimidade esta afirmação possa ser questionável nesta não é: se és abusada conta, diz, expõe. Não guardes. Não tenhas vergonha.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Antes do juízo II


Pensas que sabes muito sobre África? Sobre a Europa, sobre as Américas ou sobre a Ásia de Bollywood, onde vivem os primos afastados e as sobrinhas bonitas? Pensas que sabes muito sobre a tua terra, a tua cultura, as tuas raízes ou o que são os interesses da tua raça, do teu grupo social, da tua família, dos teus amigos? Não estejas certo. A vida é mutante. Tu e eu também.
Um destes fins-de-semana fui convidada a uma celebração. Um aniversário de uma criança. Eu fui.
Fui segura, armada com o meu pré-juízo. Não esperava grande desafio, nem grande teste aos meus talentos de comunicação: vivo em África há algum tempo - em Moçambique há mais de dois anos; a festa era no Fomento - vivi na Liberdade; a família é a da minha empregada - que conheço há um ano, de quem conheço irmãos, mãe, filhos, morada, credo e condição económica…
Surpresa…
Contava eu que ia a uma festa. Cheguei tarde, e logo aqui fui desafiando as questões do respeito. Tudo é relativo mas é comum a muitas culturas, localizações geográficas, contextos sociais e religiosos - é quase seguro que chegar a horas não ofende ninguém. Mas mesmo assim eu resolvi desafiar os meus talentos e… chegar atrasada.
Chego, e a cerimónia que devia começar há cinco horas atrás e estar agora no momento descontraído dos comes e bebes, está ainda no início, na celebração religiosa.
Eu encolho-me e repito os “Amén”, meio envergonhada, meio afirmativa, em ataque de fé inesperada, em afirmação involuntária dos antecedentes da formação religiosa. Eu não presto culto ao deus cristão mas aqui sai-me da boca… porquê?
Eu não sabia o que fazer, eu não entendia metade do que se dizia, do que se fazia, do que se esperava de mim, interpretava cada frase como lição para minha própria falha e cada olhar cansado como censura, descodificava os gestos como desconfiança, e até o meu lugar à mesa parecia desafiar as capulanas nas esteiras onde até os mais velhos estavam sentados.
Eu sentada, e a mente a viajar em falhas imaginárias e medos reais. Não sabia o que fazer. Durante duas horas não soube, falhei o cumprimento à mãe e pai da casa, a homenagem à criança e a atenção à anfitriã. Bebi Fanta que nunca bebo e nem toquei na cacana que foi feita para mim, não elogiei as músicas cantadas, não aprendi com o que me intrigou nem mostrei que sei, que sinto, que gosto, que posso dar. Não dei nem recebi. Não me diverti. E logo que pude fugi.
Quando não me aproximo sou eu que fujo, decido ficar no meu ovo de conforto, defendo-me.
O que podia fazer? Não sei, podia ser: “quero cumprimentar mãe da casa, onde está?”; “Desculpe ter chegado tarde mas e agora… como se faz aqui em casa?”
Podia dizer! Pensemos juntos, quem iria eu ofender? Ninguém. Então porquê? Entrei como mulungo, estrangeira, mas podia ter saído de outro modo, não foi o que escolhi… mas a pergunta então é, porque fui?
Que fui fazer ao ocupar a cadeira de destaque na cerimónia da família? Quando me sento entre uma família africana não sou eu que me sento, é um mulungo que toma lugar, que toma palavra, que respeita ou desrespeita os cultos. Como um africano numa comunidade chinesa é “o” africano e não um individuo qualquer, único, com sua personalidade, suas manias, gostos e defeitos, não, ele é África, porque é tudo o que conhecem sobre ela.
A vida é cheia de negociações e re-negociações, de comunicação, de hierarquia, de ritos, de hábitos, de códigos, de regras, e a não ser que escolhamos a vida na montanha temos de descodificar. E a toda a hora. Sempre.
Viver é descodificar, mais nada.
Mas é bom quando a tradução é simultânea! Claro que depende dos intervenientes, de um tempo, de um espaço, de uma situação específica. E aqui o delay foi inevitável…
Mas agora, em casa, sentada nas almofadas da sala em estilo oriental, aqui descobri.
Porque agi assim?
Por medo. Por medo do ridículo. Eu escondi-me, nada fiz por cobardia, por vergonha, por defesa. Preferi correr o risco de ser mal-educada que ser ridícula.
Pela experiência que vivi até hoje tenho poucas certezas e as que tenho testo-as todos os dias. Esta continua actual: todos somos ignorantes.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Antes do juízo


Não, não falo do juízo final, aquele que se crê em algumas religiões que irá organizar no nosso currículo as faltas e os pontos positivos e decidir da avaliação.
Não falo disso. Falo do pré. O pré-juízo.
Não sei bem o que é ou de onde vem, mas sinto que acontece. Todos nós, nalgum momento antes de pensar – dizemos; antes de saber – afirmamos; antes de escutar - julgamos.
Porque fala a aparência tanto?
Logo que me parece já digo que é. E mesmo sem me aperceber disparo coisas habituais como constantes e as constantes como certezas. E surgem no discurso sem pensar, bem escondidas nas bolsas vazias dos solilóquios a dois – nos monólogos disfarçados de diálogos.
Identificas-te? Pois é, mas não devia ser. Todos sabemos o quanto é limitadora e mesmo negativa esta atitude, mas tantas vezes escorregamos neles… nos rótulos. E afirmamos alegremente que “eles” fazem assim.
Mas a minha questão está aqui, quem são “eles” e porque me ponho eu de fora de um grupo? Como limito esse grupo?
Limito assim, com um pré-juízo. E “eles” podem ser os brancos, os negros, os monhés, os chinas, os muçulmanos, nigerianos, assimilados, mulatos, canecos, bouers…
Eles são, são “assim”, são “assado”. Eles são. Eu sei.
Porquê?
É difícil precisar, mas em geral argumentamos que é verdade que vem de longe, e que “toda a gente sabe”. Ora se conceitos como verdade e longe são difíceis de precisar o terceiro faz de novo aparecer os fantasmas a abater, porque pensa comigo: quem é “toda a gente”?
Desde que viajo que esta ideia me assombra - as pessoas quando viajam observam em perfeito deslumbre o que ignoram em casa.
E eu tenho medo.
Por não querer agir assim e pela hipótese de ser condição à qual não posso – leia-se aqui “não consigo” - fugir.
Fora de casa, se sou migrante, não só as características de outros povos são para mim mais interessantes mas também as da minha própria cultura tomam diferente dimensão. No estrangeiro o moçambicano aprende as línguas que nunca falou em casa ou toca tambor africano que nunca tinha experimentado. No estrangeiro eu guardo um xaile tradicional português e comovo-me com um Fado que nunca ouvi em Portugal.
Viajamos. Estamos no estrangeiro. E exercitamos em viagem uma tolerância e um interesse pelo que é diferente de mim que são intolerância e recusa se o experimento na minha casa, no meu prédio, no meu bairro. Não o aceito, critico-o mesmo, se essa diferença se expressa num determinado menu, numa prática religiosa, numa maneira de vestir, de decorar o carro ou perfumar o corpo. Se acontece no que acredito que é a minha terra, o meu território, o que é meu de direito não o tolero. Mas llllllllaaaaaaaaaaaaaaaaaá, naqueles contextos longínquos e preenchidos de exotismo o incenso é mais perfumado e o caril mais doce, o muezin mais afinado e as línguas mais… misteriosas.
Os ovos comprados na África do Sul são melhores que os que compro deste lado da fronteira, mesmo que os traga de apenas dez quilómetros atrás. As roupas que compro a dez Randes na baixa de Joanesburgo são melhores que as que oferecem aqui os nigerianos.
Porquê? Porque vêm do estrangeiro, destino que é bom quando vamos lá para fora, mas muitas vezes mau quando o recebemos cá dentro.
O que experimento em cada dia agita-me as certezas mas penso que seria mais fácil. Seria mais fácil se todos nos lembrássemos que todos somos. Estrangeiros.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Receber as sortes


- Senhora, meu filho teve um filho de fora. Sabe que significa isso?
- Fora?... do casamento?
- Sim. Então, esse filho, menina desse filho já deu bebé. Então hoje estiveram lá na minha casa, fui na esquadra senhora, estou a regressar da esquadra. Porque pais de menina vieram-lhe entregar aqui na minha casa, que eu sou avó e que culpa de encher barriga é meu filho que está na África de sul. Então, que eu tenho de cuidar essa bebé e que por culpa de meu filho menina deles não foi na escola, porque encheu barriga então que agora eu que tenho de cuidar porque para bebé eu nem dei nada para ajudar menina. Mas eu dei senhora, eu dei bacia e sabão e dei capulana. Senhora eles me levaram na esquadra porque eu tenho de dar mais, mas eu não tenho então eu disse chefe de lá da esquadra que eu só posso ir pedir senhora. Por isso estou aqui.
- Onde está bebé?
- Está lá na minha casa senhora, ficaram lá a viver, mas na minha casa tem seis, eu nem dinheiro de farinha não tenho.
- Hum…
- Senhora, posso ir levar bebé para ver se senhora gosta?
- Sim, pode trazer.
- Levar?
- Trazer.
- Senhora?
- Sim, levar, ok.
- Senhora vai aprender a lhe nanecar nas costas com capulana, e tudo e tudo. E nós com menina mãe de bebé decidimos que bebé vai se chamar Joaninha, estava para chamar de Danilza mas aqui em Moçambique sabe que podemos dar dois nome, nome tradicional e nome de baptismo. Então nós decidimos nome de baptismo vai ser de senhora, vai ser xará.
- Xará?
- Não sabe que é xará?
- Não sei.
- Senhora xará é nome de espírito para a bebé. Entendeu?
- … Não.
- Hehehe, senhora não sabe de nossas coisas, nesses livros aí que lê não aparece essas coisas?
- Não.
- Então, meu filho mais velho, Calado…
- Calado?
- Sim. É… como é que é?... é Calaudio.
- Cláudio?
- Isso. Então, esse nome é nome de antepassado, meu avô é desse nome aí de Calado. Nós lhe demos esse nome, eu bem lhe conheço meu avô, ele não era pessoa de problemas, meu filho também não há-de ser. Assim recebe antepassado lá em casa, mesmo meu filho aqui sentado, é meu avô esse aí. Está a ver, né?
- Sim, estou a ver.
- Então bebé pode ser tua xará? Assim receber suas sortes no nome?
- Pode… mas não é melhor ser alguém da sua família, assim madrinhas é bom ser da família porque…
- Senhora, nós queremos senhora para xará, mesmo todas essas viagens e coisas de livros e assim bebé há-de receber pelos nomes. Seu nomes. Vai ser feliz aquela ali. Mas senhora tem de permitir, permite?
- Sim…
Sento-me à beira do Índico. Espero.
Sim, por muito tempo espero. Espero as sortes.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Deus vai organizar

- Senhora veio de jipe lá de Portugal? Ysh! Senhora! É muito longe! Todo esse caminho? Ysh, senhora deve conhecer muitas províncias!
Viajei, viajo.
Já sabia, passo a passo vou apenas confirmando o prazer que me dá o mudar de lugar. E até agora avanço sempre, nas curvas caprichosas da estrada e sob a orientação misteriosa da estrela.
Pelo caminho conheci Moçambique. Daqui saí, viajei. E voltei.
Volto para o desafio exótico, misturado de influências e inchado de cosmopolitismo, para a doçura húmida de Maputo.
Volto, ainda não acabou meu tempo aqui. Volto porque me inspira, inspiro-me nas gentes, nas filosofias da vida.
Sento-me à sombra da bananeira, e escrevo. Ela fica curiosa:
- Senhora está a fazer?
- Eu? Estou a escrever.
- Hum… (espreita por cima do meu ombro) eu não sei escrever, eu nasci no mato, láaaaaaaaaaaaaaaaa (alonga o som como a percorrer a imaginária distância) em Inhambane, minha mãe morreu muito cedo, papai casou mas aquela ali não me gostou ou não sei, então eu nem na escola não fui, nem assinar não sei… senhora pode me ensinar?
E enquanto arruma as minhas roupas:
- Senhora? Posso levar esse vestido?
- Bom… esse vestido...
- Sim, mas senhora não está a usar, eu haveria de usar.
No dia seguinte:
- Senhora, eu estou de malária.
- Então não tem problema, pode ficar a descansar.
- Nada senhora, eu hei-de vir descansar lá na tua casa.
- Mas pode ficar com sua família.
- Nada, hei-de ficar aqui na tua casa, lá na minha casa tem muita água para cartar, aqui eu fico bem, bem mesmo. Crianças lá hão-de se organizar.
E como já é hábito de quinze em quinze dias há cerimónia familiar para organizar:
- Senhora eu estou sem dinheiro de farinha, de arroz, nem folha de chá não tenho. Amanhã tem aniversário de meu filhos mais novo e eu vou receber visitas, mesmo assim, sem nada, nem biscoito não fiz…
- Pois…
- Bom, deus há-de organizar.
- Pois…
Hoje chega atrasada, aproxima-se de mansinho, na mão um copo de água de coco.
- Hum… Senhora como está?
- Eu estou bem obrigada e na sua casa, tudo bem?
- Sim, tudo bem, nada mal. Senhora, senhora não tem filhos?
- Não.
- Nunca teve, na sua vida, toda a sua vida nunca encheu barriga?
- Nunca.
- Ysh… senhora, jura?
- Sim.
- Então como faz, senhora usa camisinha?
- Eu…
- Senhora, sabe que aqui em Moçambique nós sabemos muitas coisas… senhora sabe porquê nunca engravidou?
- Bom, porque…
- Nada, senhora não sabe. Essas coisas de camisinhas e comprimidos, isso não é nada. Sangues é coisa forte, nada disso são coisas de importância. Senhora, vamos fazer assim, eu sei das coisas, eu sou sua mamã em África! Afinal! Então eu vou plantar, plantar e depois apanhar e pilar, pilar e depois ferver, ferver! Senhora toma, nem há-de terminar duas panela e barriga há-de crescer, é assim senhora, não acredita? Eu sei dessas coisas, pessoas vêem de longe, senhoras mesmo da cidade, com esses problemas, e eu faço. Funciona sempre. Isso tudo aí que está fechado vai abrir.
- Sim, mas…
Ela já nem ouve, vai fazer os seus trabalho e na saída:
- Senhora, tou pidir sair, posso?
- Sim, até manhã, obrigada.
- Senhora, senhora tem fé? E… mas não vai na igreja, né? Pois.. então isso que eu disse de deus organizar senhora…
- Sim?
- Não acredita não é? Por isso… senhora não quer ajudar deus a organizar aquilo ali de meu dinheiro?

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Time for Africa


Sábado de manhã procuro pneus para lama, estou cansada de ficar atolada pelas estradas de terra dos países das chuvas. Encontro Salim Hassan que ao meu pedido responde apenas:
- Why? The rainy season is almost over. Have a cup of tea, don’t worry about it now.
Estou em casa de um amigo ele pede ovos para o pequeno-almoço:
- Patrão, ovo não tem, peço dinheiro para comprar – sai para o mercado, regressa, prepara a refeição, o boss come. No dia seguinte:
- Ovos mexidos e…
- Patrão, ovo não tem.
- Mas ontem foste ao Mercado!
- Sim, e comprei ovos para ontem, não sabia que hoje precisava.
Folha de chá só se compra quando a visita já entrou em casa e já sentou.
- Tem vinho?
- Acabou.
- Como acabou? Ontem te perguntei se tinha.
- E tinha. Ontem tinha. Hoje é que não.
- Não sai água. Não disseste que havia?
- Sim, havia.
- Mas tinha pouca?
- Não sei, patrão não perguntou se tinha pouca, perguntou se tinha. Ontem no tanque tinha.
Casa está quase a cair, homem dorme na entrada da porta. Estamos na estação das chuvas, chove todos os dias, todos sabemos. Basta uma chuvada mais forte para destruir a casa. O homem descansa, dorme, ergue a mão e saúda-me: “mambo!”
Para quê preocupar-me com algo que ainda não aconteceu e pode nem acontecer?
Temos tempo. Não há pressa.
Pode parecer desleixo ou preguiça mas na verdade não ignoremos que é de facto imprevisível o rumo das coisas. Que não depende de nós o caminho, mesmo que decidamos em consciência que placas seguir, que paragens fazer.
Para os crentes a ideia de que Deus, uma força superior, há-de organizar a nossa vida e nela todas as pequenas questões, é talvez tranquilizadora. E a verdade é que todos ou quase todos nós nos apoiamos nessa ideia. Na ideia de que depende da nossa vontade e dos que nos rodeiam, com quem vivemos, para quem trabalhamos… o sucesso ou insucesso das nossas vidas.
Mas não é verdade, catástrofes naturais a comprová-lo, acasos diários e coincidências a lembrá-lo.
Nas terras etíopes e nos países Swahili existe uma particular aproximação à questão das horas, com o dia começamos a contar, logo que nasce o sol – hora um; depois que se põe – termina a contagem. Não existe hora no escuro. Nos países sem electricidade faz mais sentido do que pode parecer.
Aqui muitas vezes ouvimos a expressão “aquela hora das xx”, e anuncia o vago suficiente que encerra qualquer determinação de horário. Será por aquela hora, dentro daqueles 60minutos, mais coisa, menos coisa.
«I ask for a moment of undulgency… The Works that I have in hand I will finish them after.»
«Não te irrites hoje; Não te preocupes hoje; Agradece hoje; Trabalha com verdade hoje; Ama todos os seres vivos hoje…»
E não é disso que falam as filosofias zen tão antigas e tão populares no momento? As artes da meditação, da interiorização do caminho, do agora, do eu, do interior, do respeito pelos caminhos sabedores da natureza…
Então, basta olhar para África, o segredo esta aqui.

domingo, 18 de abril de 2010

African time

Em muitos lugares de África a relação com o tempo é… particular. Todos sabemos e todos dizemos: “o tempo é o que fazemos dele”. Sim, mas poucos o sentimos, a verdade é que para a maioria o tempo é ditador, no relógio, no despertador, na rádio, no djob, em casa…
Estou em África, sentada à porta do gabinete do oficial Swahili.
Está calor, estamos na estacão das chuvas curtas, chove e faz sol, todos os dias, várias vezes.
Eu estou aqui, sentada neste banco de pau, e espero, à chuva e ao sol. Molho-me e seco-me. Espero.
Para mim o oficial está atrasado, muito. Mas isso só existe na minha cabeça.
Está atrasado duas horas e para mim isto não se faz, não é profissional, é falta de respeito, etc, etc, etc. Mas isso é para mim, alheia ainda aos valores do momento.
Passaram uma hora, duas horas, quase três horas de tempo… horas “de tempo”… hum… eu pergunto-me de que poderiam ser feitas as horas senão de tempo… eu impaciento-me. Não consigo fazer nada. Porquê? Porque espero.
Finalmente ele aparece, vestido na sua túnica africana, eu levanto-me de imediato, estou furiosa e preparo-me para o descarregar no culpado.
Mas esta não é a verdade, agora sei, o culpado não é ele, sou eu.
Ele pára na entrada e conversa com o guarda, pergunta sobre o dia, a chuva, a família, as frutas da época. Não me olha, encosta-se por um momento na parede, descalça os sapatos, volta a calçar-se, avança, eu avanço de mão esticada, ele não me cumprimenta:
- Já viu estas flores aqui, como estão bonitas? – esta apanha-me de surpresa,
- … Flores?
- Sim, estas flores são muito raras e só aparecem nesta altura do ano… - a verdade é que nem oiço,
- Sim. Senhor Makwakwa eu estou aqui porque precisávamos de falar sobre…
- Hum… é estranho normalmente nestes dias eu gosto de ficar a olhá-las…
- Sim, ok. Bom, a situação é que… - não me deixa continuar,
- Como esteve aqui todo este tempo pensei que tivesse aproveitado para contemplar – e enquanto abre a porta do gabinete completa – é muito importante o tempo para a contemplação sabe?
Eu sigo-o para dentro do escritório, ele senta-se atrás da secretária, entra uma mulher com uma criança pequena que ele toma no colo, fala com ela em língua local que eu não conheço, e só depois olha para mim:
- Sabe, Dona?...
- Joana.
- Mullher de…?
- Não sou casada.
- Mãe de…?
- Não tenho filhos.
- Lamento muito. Mas Ok… Joana. Então, sabe que… - acende uma cigarrilha – eu gosto de contar uma piada engraçada, é só uma piada percebe? Gosta de piadas?
- Sim, mas eu vim aqui…
- Quando deus criou o homem branco deu-lhe um relógio, quando criou o homem negro deu-lhe tempo…